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O celular é mesmo o vilão? Uma análise sobre a falta de atualização do professor que pode ser o verdadeiro problema na sala de aula.

Foto do escritor: W. Gabriel de OliveiraW. Gabriel de Oliveira

Em um mundo cada vez mais conectado, culpar o celular pela falta de atenção dos alunos pode parecer uma solução óbvia, mas será que é justa? A verdadeira questão pode estar no modo como o professor conduz suas aulas e utiliza as ferramentas tecnológicas a seu favor. Neste artigo de opinião, discuto como a falta de atualização pedagógica é, muitas vezes, o real vilão nas salas de aula, enquanto o celular, quando bem utilizado, pode se tornar um poderoso aliado no processo de ensino e aprendizagem.


Sala de aula com diversidade racial e um estudante em cadeira de rodas. Os alunos estão usando tablets e smartphones, enquanto o professor utiliza um quadro digital. A imagem destaca a inclusão, diversidade e o uso de tecnologia no ambiente educacional.
Sala de aula moderna e inclusiva, na qual estudantes utilizam tecnologia para aprender de forma ativa e engajada.

A crítica ao tempo de atenção das pessoas em diferentes cenários - seja para filmes, esportes, conversas ou a sala de aula - é uma questão que se agrava com o avanço da tecnologia. No entanto, responsabilizar unicamente o celular por essa perda de atenção revela uma análise simplista e incompleta.

Não é o celular que rouba a atenção, mas sim a forma como a atenção é disputada, especialmente em contextos educacionais.

O problema real está na falta de métodos pedagógicos atualizados e no despreparo de muitos professores em lidar com as necessidades de aprendizagem dos alunos contemporâneos.


É curioso observar que o professor, um dos poucos profissionais cujo público-alvo é um grupo de pessoas em massa, muitas vezes não busca atualização em como cativar a atenção em um mundo repleto de estímulos. Profissões como a de cineastas, apresentadores de TV, locutores de rádio, todos necessitam de constante inovação para manter a atenção de seus espectadores. Por que o professor seria uma exceção?


Se a aula ministrada não consegue competir com um dispositivo móvel, talvez o problema não esteja no celular, mas sim na maneira com que a aula é conduzida.


A questão da atenção em diversos cenários contemporâneos, como filmes, esportes, conversas sociais e, especialmente, na sala de aula, tem sido discutida à exaustão, muitas vezes apontando o celular como o grande vilão da distração. Entretanto, essa visão simplificada ignora um aspecto essencial: a inadequação de metodologias pedagógicas frente à modernidade e à dinâmica do século XXI. Por isso, fala-se tanto sobre a falta de atualização de muitos professores em como engajar seus alunos e criar ambientes de aprendizado adequados.


Um exemplo que contradiz a ideia de que o celular é o problema está no trabalho do professor Hermínio Borges Neto, do Laboratório Multimeios, da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Ceará, que desenvolveu com seu grupo de pesquisa a Sequência Fedathi, uma proposta metodológica que une, dentre outros pontos, pedagogia e tecnologia de maneira eficaz. A Sequência Fedathi parte de uma construção do saber através de fases que estimulam a reflexão, a investigação e a intervenção, propondo a problematização como ponto de partida para o ensino, valorizando o tempo de aprendizagem e, com isso, podendo utilizar ferramentas tecnológicas para complementar o processo (Borges Neto, 2014). Ao contrário de isolar os alunos do celular, a metodologia mostra, dentre outras oportunidades, uma chance de integrar, por exemplo, o aparelho celular como um instrumento pedagógico útil e essencial.


Pesquisadores como Moran (2018) também abordam a importância da atualização pedagógica para lidar com a nova realidade tecnológica. Moran defende que o professor precisa assumir o papel de mediador e facilitador, utilizando recursos digitais para criar um ambiente de aprendizagem mais dinâmico e participativo. A falta de adaptação dos professores, segundo o autor, compromete diretamente a qualidade do ensino e, consequentemente, a atenção dos alunos. O que se observa, portanto, é que não é o celular ou qualquer outro dispositivo que rouba a atenção dos estudantes, mas sim a maneira antiquada e passiva como as aulas são conduzidas.


Os métodos pedagógicos de décadas atrás não funcionam mais para uma geração que cresce em meio à conectividade constante e à rapidez da informação. É preciso repensar a maneira como ensinamos, atualizando processos e integrando a tecnologia como uma aliada, e não uma inimiga. O celular, como qualquer outro dispositivo, é apenas uma ferramenta. Ele pode ser utilizado para o bem ou para o mal dependendo de como é integrado ao ambiente educacional. Longe de ser o vilão da história, o celular pode ser um recurso poderoso de aprendizado, quando utilizado de forma consciente e direcionada.


Dizer que o celular é o único culpado pela distração dos alunos ignora a realidade de que, mesmo sem ele, as distrações estariam presentes. Uma janela aberta, o barulho do ar-condicionado ou até o colega ao lado, passando um recado, são exemplos clássicos de distrações que sempre existiram nas salas de aula. A diferença é que, no passado, se procurava outro "vilão" para justificar a falta de atenção. Hoje, o vilão escolhido é o celular, mas o problema verdadeiro é a incapacidade de muitos professores em prender a atenção de seus alunos por meio de práticas pedagógicas inovadoras e envolventes.

A ideia de que a atenção é algo disputado em diversos contextos contemporâneos é explorada por autores como Carr (2010), que em seu livro The Shallows discute como a atenção é uma habilidade cada vez mais fragmentada pela multiplicidade de estímulos digitais. No entanto, Carr aponta que é possível educar as novas gerações para que lidem com essa dispersão, utilizando a tecnologia de forma mais consciente e proveitosa. Essa abordagem encontra eco em estudos como o de Kenski (2012), que reforça a necessidade de os professores se apropriarem das ferramentas digitais e as incorporarem às suas práticas pedagógicas.


Um bom professor, atualizado com as tendências pedagógicas e que utiliza metodologias ativas de ensino, pode transformar o celular de um obstáculo em uma ferramenta de engajamento. Em vez de combater o celular, por que não integrá-lo ao processo de aprendizado? Aplicativos educacionais, pesquisas rápidas, discussões interativas - todas essas são maneiras de utilizar o celular de forma positiva, aproveitando o interesse natural dos alunos por tecnologia.


Ao invés de ser aquele diretor ou fiscal de corredor que apenas reclama do barulho e da desordem de uma sala, é mais produtivo olhar para os resultados de aprendizagem. Uma aula barulhenta pode ser um reflexo de um ambiente de aprendizado ativo e participativo, no qual os alunos estão engajados em debates e experimentações. A pedagogia precisa de renovação constante. E aqueles que não se atualizam estão fadados ao desaparecimento profissional. Um professor que não busca evoluir para manter a atenção de seus alunos está apenas prolongando a própria irrelevância. Enquanto isso, aqueles que abraçam a modernidade e aprendem a utilizar as ferramentas tecnológicas a seu favor alcançam altos índices de sucesso, porque sabem que a atenção do público é um bem valioso que exige técnicas e práticas eficazes.


Ignorar essas mudanças é, de certa forma, insistir em uma visão ultrapassada de ensino. O problema não é o celular, mas a maneira como o conteúdo é apresentado. Por isso, reforço: os professores que não conseguem cativar a atenção dos alunos estão fadados a perder espaço, enquanto os que se atualizam conseguem resultados significativos em suas práticas (Moran, 2018).


O uso da tecnologia como instrumento pedagógico está cada vez mais consolidado e não deve ser tratado como inimigo. O celular é apenas mais uma ferramenta, assim como os livros, o quadro e os projetores. Culpar a tecnologia pela falta de atenção dos alunos é uma forma de evitar a discussão sobre a verdadeira causa: a ineficiência pedagógica e a falta de metodologias que prendam a atenção e promovam um aprendizado significativo.

Em vez de culpar o celular, é hora de refletirmos sobre a qualidade das aulas, sobre como podemos transformar a sala de aula em um ambiente de estímulo à criatividade e ao pensamento crítico, incorporando a tecnologia como parceira do conhecimento. Afinal, a verdadeira revolução educacional não está em barrar o progresso, mas em aprender a usá-lo a nosso favor. Os educadores e gestores deveriam se concentrar nos resultados de aprendizagem, isso sim. A questão não é a tecnologia que os alunos estão usando, mas o quanto os alunos estão de fato aprendendo com metodologias que integram tecnologia, como a Sequência Fedathi, ou qualquer outra abordagem atualizada (Borges Neto, 2014). A pedagogia do século XXI deve ser inclusiva, dinâmica e cativante - e, acima de tudo, deve ser capaz de competir com os inúmeros estímulos externos que permeiam a vida dos estudantes.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


BORGES NETO, Hermínio. Sequência Fedathi: uma proposta para o ensino de matemática e ciências. Fortaleza: Edições UFC, 2013. Disponível em: http://www.repositorio.ufc.br/handle/riufc/47513. Acesso em: 04 out. 2024.


CARR, Nicholas. The Shallows: What the Internet Is Doing to Our Brains. New York: W. W. Norton & Company, 2010.


KENSKI, Vani Moreira. Educação e tecnologias: o novo ritmo da informação. Campinas: Papirus, 2012.


MORAN, José Manuel. Novas tecnologias e mediação pedagógica. Campinas: Papirus, 2015.

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